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Bem-Vindos

Janeiro 7, 2007

Brasão da freguesia de Santo Estêvão

2 comentários leave one →
  1. Luís Miguel Carneiro permalink
    Abril 24, 2009 12:06 am

    Em primeiro lugar, os meus parabéns por esta página e um sincero incentivo para que prossigam. Gostava apenas de fazer alguns reparos à tradução da carta de foral.

    Por vezes, as traduções “tanto quanto possível” ficam um pouco aquém do desejado. De facto, o latim diplomático do século XIII português não pode (não deve) ser traduzido à letra, mas no espírito do modelo dos diplomas da época e da observância do seu escatolo, para o que, por vezes, são necessários alguns conhecimentos históricos. É o caso desta carta de foral do ano da Era de 1296, ou seja, de 1258 de Cristo (trata-se de subtrair 38 anos e não de adicionar, como erradamente se faz no texto; 1334 é já em pleno reinado de Afonso IV, neto deste Afonso III).

    Assim, e passando sobre algumas minudências na tradução dos termos do foral, há que introduzir as seguintes no escatacolo de confirmantes e testemunhas:

    O Egidius martini não é um Egídio Martins, mas sim, no seu portuguesíssimo nome (tal como surge nos documentos coevos já em língua romance ou vulgar), D. Gil Martins (de Riba de Vizela), mordomo-mor da cúria régia até 1261 (data em que foi substituído por um representante da nova nobreza próxima do Bolonhês, D. João Peres de Aboim).

    A tradução de tenens por tenente, não sendo errada, não dá o pleno significado que tinha: governador.

    Quanto aos “Lobos” em que se traduziu Lupiz, não estamos no terreno da zoologia: trata-se dos irmãos Lopes, Afonso Lopes de Baião, governador de terras de Sousa, e Diogo (e não o latínico Dídaco) Lopes de Baião, governador de Lamego (ainda havia o primogénito, Fernão ou Fernando Lopes de Baião, governador de Bragança) – todos lídimos representantes da linhagem da casa de Baião, uma das cinco fundadoras da nacionalidade (tal como os Sousões, nesta carta representados pelo alferes-mor desde 1255, sucedendo a João Afonso de Albuquerque I, governador da terra de Barroso e genro do rei pelo seu casamento com a infanta bastarda Leonor, o conde Gonçalo Garcia de Sousa, irmão dos famosos Mem Garcia de Sousa, governador de Panóias, e Fernão Garcia de Escaravunha – o celebrado trovador das cantigas de escárnio do Cancioneiro da Vaticana).

    Aliás, um outro Sousa figura nesta carta: o Martinho Egídio é, na realidade, Martim Gil de Sousa, governador de Trás-os-Montes e que será o segundo conde de Barcelos (à morte do sogro, João Afonso de Albuquerque I, primeiro conde de Barcelos).

    Poderíamos deter-nos nos bispos que confirmam a carta, porque alguns deles foram, de facto, personagens importantes, mas tal não vem agora à colação. Mas passando às testemunhas, um nome de clérigo merece referência e não deixo de a assinalar: o Juliano, deão de Lisboa, era, de facto, Pedro Julião, deão da Sé de Lisboa e arcediago da Sé de Braga (embora o encontremos quase sempre em Guimarães, entre 1250 e 1268), que havia estudado e ensinado nas universidades de Paris e Siena, onde ficara conhecido por Pedro Hispano. Regressando de Paris (onde estivera presente no célebre Juramento do conde de Bolonha) em 1250, para servir como homem de confiança o antigo conde, agora Afonso III, participa em múltiplos actos régios. Arcebispo eleito de Braga em 1270, depois confirmado (1272), rumou à cúria romana ao tornar-se cardeal Tusculano sendo, pouco depois e por um breve período de seis meses, eleito Papa como João XXI, em 1278. Morreu quando o tecto do quarto onde dormia desabou, mas deixou escritas diversas obras de Moral, Teologia, Cânones, Medicina (que o tornaram famoso na cristandade) e, imagine-se, Gastronomia e Culinária!

    Não me alongo mais, apenas umas breves precisões: o referido “Mendo Soeiro” é Mem Soares de Melo (Merloo) que, com a também referida testemunha Egas Lourenço (da Cunha, senhor de Tábua) é um dos dois únicos “privatus regis” conhecidos neste reinado; Durando Pelagio é Durão Pais e o “superintendente” (como traduziram superjudex) é o sobrejuíz Rodrigo Pedro (de Espinho), cargo onde esteve em funções, pelo menos, desde as cortes de Leiria de 1254 até 1259, quando subscreve uma sentença da corregedoria da corte.

    Desculpem-me os preciosismos e a extensão (pensava vir apenas corrigir a data) mas …foi correndo. Obrigado pelo empenho e continuem o bom trabalho.

  2. Manuel Maria Moutinho permalink
    Outubro 17, 2009 2:20 am

    A Santo Estêvão e a Luís Miguel Carneiro, os meus cumprimentos.

    Tomo a ousadia de completar o comentário (perspicaz e erudito, como sempre) de meu mestre e amigo, Dr. Luís Miguel Carneiro. De facto, debruçou-se sobre todos os confirmantes que constam do foral – corrigindo uma tradução do latim menos atenta e uma transcrição paleográfica defeituosa, embora bem intencionada – mas esqueceu-se de se debruçar sobre o mais importante de todos: o poderoso João Peres de Aboim, que apenas menciona “en passage”.

    Talvez porque partiu do princípio de que seria por demais conhecido…

    Assim, e para quem não saiba, o Avoino que testemunha e confirma o foral não é mais do que João Peres (Avoino, Avoíno, Aboíno, Aboim), o subsignifer, primeiro, e mordomo-mor, depois, de Afonso III.

    À hospitaleira gente de Santo Estêvão, ao empenhado Paulo Sena (exemplo de amor pela nossa terra, que louvo) e ao amigo e mestre (que, espero, continue a dar-nos o prazer de partilhar o seu imenso saber com todos – conhecidos e desconhecidos – com a humildade que lhe é própria), um abraço fraterno.

    MM

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